quarta-feira, 30 de maio de 2007

Ecologia Profunda (Arne Naess)










O Superficial E O Profundo: movimentos ecológicos de longo alcance - Um sumário (Arne Naess)
Originalmente publicado em Inquiry (Oslo), 16 (1973).

A EMERGÊNCIA DE ECOLOGISTAS de sua relativa obscuridade anterior marca um ponto decisivo em nossas comunidades científicas. Mas sua mensagem está sendo distorcida e mal utilizada. Um movimento superficial, porém consideravelmente poderoso no presente, e um movimento profundo, porém menos influente, competem por nossa atenção. Farei a seguir um esforço para caracterizar os dois.

I. O movimento de Ecologia superficial:
Luta contra poluição e esgotamento de recursos.
Objetivo central: a saúde e afluência de pessoas nos países desenvolvidos.

II. O movimento de Ecologia profunda:
1. Rejeição da imagem de “homem no meio ambiente” em favor da imagem relacional, de campo total. Organismos como nós na rede biosférica ou campo de relações intrínsecas. Uma relação intrínseca entre duas coisas A e B é tal que a relação pertence às definições das constituições básicas de A e B, assim, na ausência da relação, A e B não são mais as mesmas coisas. O campo total não se dissolve no conceito de “homem no meio ambiente”, mas sim, em todo conceito compacto de “objeto-no-meio”- exceto quando se trata de um nível de comunicação preliminar ou superficial.

2. Igualitarismo-biosférico-em-princípio. A cláusula "em princípio" é inserida porque qualquer práxis realística exige alguma morte, exploração e opressão. O ecologista de campo adquire um profundo respeito, ou até mesmo veneração, pelos modos e formas de vida. Ele alcança uma compreensão interior, um tipo de entendimento que os outros reservam para seus próximos e para os membros da raça humana e para uma seção estreita de modos e formas de vida. Para o ecologista de campo, o direito igual de viver e desabrochar é um valor axiomático intuitivamente claro e óbvio. Sua restrição aos humanos é um antropocentrismo com efeitos prejudiciais na qualidade de vida dos próprios humanos. A qualidade depende, em parte, do profundo prazer e satisfação que recebemos da pareceria íntima com outras formas de vida. A tentativa de ignorar nossa dependência e estabelecer um papel de mestre-escravo contribuiu para a alienação do homem de si mesmo. O igualitarismo ecológico implica na reinterpretação de variáveis de pesquisas futuras, "nível de populosidade", de um modo que a populosidade mamífera geral e a perda de igualdade vital é considerada seriamente, e não apenas a populosidade humana. (Pesquisas sobre a alta demanda de espaço livre de certos mamíferos sugeriram, incidentalmente, que os teóricos do urbanismo humano subestimaram, em grande parte, as necessidades humanas de espaço para viver. Sintomas comportamentais da alta populosidade, como neuroses, agressividade, perda de tradições, são, em grande parte, as mesmas entre os mamíferos).

3. Princípios de Diversidade e Simbiose. A Diversidade aumenta as potencialidades de sobrevivência, as chances de novos modos de vida, a riqueza de formas. E a tão falada disputa pela vida, e a sobrevivência dos mais aptos, deveria ser interpretada no sentido da habilidade de coexistir e cooperar em relacionamentos complexos, em vez da habilidade de matar, explorar e oprimir. "Viva e deixe viver" é um princípio ecológico mais poderoso do que "Ou você ou eu". Este tende a reduzir a multiplicidade de tipos de formas de vida, e também cria a destruição dentro de comunidades da mesma espécie. Portanto, atitudes ecologicamente inspiradas favorecem a diversidade de formas de vida humana, de culturas, de ocupações e economias. Elas dão suporte à luta contra a invasão e dominação econômica e cultural, bem como a militar, e são opostas à aniquilação de focas e baleias tanto quanto a de culturas e tribos humanas.

4. Postura anti-classes. A diversidade de modos de vida humanos se deve em parte à exploração e opressão (intencional ou não) por parte de certos grupos. O explorador vive diferentemente do explorado, porém ambos são afetados negativamente em seus potenciais de auto-realização. O princípio da diversidade não cobre diferenças devidas meramente a certas atitudes ou comportamentos restringidos ou bloqueadas à força. Os princípios de igualitarismo ecológico e de simbiose apóiam a mesma postura anticlasses. A atitude ecológica favorece a extensão de todos os três princípios a quaisquer conflitos de grupo, incluindo os atuais conflitos entre nações desenvolvidas e aquelas em desenvolvimento. Os três princípios também favorecem a extrema precaução em relação a qualquer plano geral para o futuro, exceto aqueles que consistirem em grandes, ou em alargamento, diversidades sem classe.

5. Luta contra poluição e esgotamento de recursos. Nesta luta os ecologistas encontraram partidários poderosos, porém algumas vezes em detrimento de seu alcance total. Isto acontece quando a atenção é focada na poluição e esgotamento de recursos ao invés de dar-se a devida importância aos outros pontos, ou quando são implementados projetos que reduzem a poluição mas aumentam males de outros tipos. Portanto, se o custo das necessidades vitais aumenta por causa da instalação de dispositivos antipoluição, as diferenças de classes aumentam também. Uma ética de responsabilidade implica que o ecologista sirva ao movimento ecológico profundo e não superficial. Quer dizer, não apenas o item cinco, mas todos os sete itens devem ser considerados juntos.
Os ecologistas são informantes insubstituíveis em qualquer sociedade, não importando sua tendência política. Quando bem organizados, eles têm o poder de rejeitar serviços nos quais estejam submetidos a instituições ou a planejadores com objetivos ecológicos limitados. Como ocorre atualmente, algumas vezes os ecologistas servem a mestres que deliberadamente ignoram as perspectivas mais amplas.

6. Complexidade, não complicação. A teoria dos ecossistemas contém uma importante distinção entre o que é complicado sem nenhuma Gestalt ou princípios unificadores – podemos pensar sobre a procura de nosso caminho em uma cidade caótica – e o que é complexo. Uma multiplicidade de fatores mais ou menos interagentes e legítimos podem operar juntos para formar uma unidade, um sistema. Fazemos um sapato ou usamos um mapa ou integramos uma variedade de atividades em um padrão de trabalho diário. Organismos, formas de vida, e interações na biosfera em geral, exibem uma complexidade de um nível tão incrivelmente alto que trazem cor à perspectiva geral dos ecologistas. Tal complexidade faz com que o pensamento em termos de vastos sistemas seja inevitável. Também traz uma percepção fixa e aguçada da ignorância humana profunda sobre as relações biosféricas, e, portanto, de seus efeitos perturbadores.
Aplicado aos seres humanos, o princípio da complexidade-não-complicação favorece a divisão do trabalho, e não a fragmentação do mesmo. Favorece ações integradas nas quais a pessoa inteira é ativa, e não meras reações. Favorece economias complexas, e variedades integradas de modos de viver. (Combinações de atividade industrial e agrícola, de trabalho intelectual e manual, de ocupações especializadas e não-especializadas, de atividade urbana e não-urbana, de trabalho na cidade e recreação na natureza com recreação na cidade e trabalho na natureza...).
Favorece a tecnologia suave e a "pesquisa futura suave", menos prognose, mais clareza de possibilidades. Mais sensibilidade em relação à continuidade e tradições vivas, e mais importante, em relação ao nosso estado de ignorância.
A implantação de políticas ecologicamente responsáveis requer, neste século, um crescimento exponencial de habilidade técnica e invenção – mas em novas direções, direções que hoje não são constante e liberalmente apoiadas pela política dos órgãos de pesquisa nos estados de nossos países.

7. Autonomia local e descentralização. A vulnerabilidade de uma forma de vida é aproximadamente proporcional ao peso das influências distantes, vindas de fora da região local na qual essa forma obteve um equilíbrio ecológico. Isso dá apoio aos nossos esforços de fortalecer a autonomia governamental local bem como a auto-suficiência mental e material. Mas esses esforços pressupõem um ímpeto em direção à descentralização. Problemas de poluição, incluindo aqueles de poluição térmica e recirculação de materiais, também nos conduzem nessa direção, porque um aumento da autonomia local, se pudermos manter constantes outros fatores, reduz o consumo de energia. (Compare uma localidade aproximadamente auto-suficiente com uma que requer importação de alimentos, materiais para construção, combustível e mão de obra especializada de outros continentes. A primeira pode usar
[1] somente cinco por cento da energia utilizada pela segunda).
A autonomia local é fortalecida pela redução no número de ligações nas cadeias hierárquicas de decisão. (Por exemplo, uma cadeia que consiste de um conselho local, conselho municipal, estadual, federal, e de instituições superiores e globais pode ser reduzida a uma composta de um conselho local, um nacional, e uma instituição global) Até mesmo se uma decisão seguir uma ordem majoritária a cada passo, muitos interesses locais podem ser descartados ao longo da linha, se ela for muito longa.
Resumindo então, a primeira coisa que se deveria ter em mente é que as normas e tendências do movimento de Ecologia Profunda não são derivadas da ecologia por lógica ou indução. O conhecimento ecológico e o estilo de vida do ecologista de campo sugeriram, inspiraram e fortaleceram as perspectivas do movimento da Ecologia Profunda. Muitas das formulações contidas nos sete pontos pesquisados acima são generalizações bastantes vagas, apenas sustentáveis se direcionadas de forma mais precisa em certas direções. Porém, no mundo inteiro a inspiração proveniente da ecologia tem mostrado convergências notáveis. A pesquisa não tem a pretensão de ser mais do que uma das possíveis codificações condensadas dessas convergências.
Em segundo lugar, deveria ser completamente apreciado o fato de que os princípios do movimento de Ecologia Profunda são clara e obrigatoriamente normativos. Eles expressam um sistema de prioridade de valor baseado apenas em parte nos resultados (ou ausência de resultados, cf. item seis) da pesquisa científica. Hoje em dia, os ecologistas tentam influenciar as corporações politicamente ativas em grande parte através de ameaças, através de previsões com relação a poluentes e esgotamento de recursos, sabendo que os agentes políticos aceitam pelo menos certas normas mínimas relativas à saúde. Mas é claro que há um vasto número de pessoas em todos os países, e até mesmo um número considerável de pessoas no poder, que aceitam como válidas as normas mais abrangentes e os valores característicos do movimento da Ecologia Profunda. Há potenciais políticos nesse movimento que não deveriam ser negligenciados e que tem pouco a ver com poluição e esgotamento de recursos. No planejamento de futuros possíveis, as normas deveriam ser livremente usadas e elaboradas. Em terceiro lugar, na medida em que movimentos ecológicos merecem nossa atenção, eles são de caráter ecofilosóficos mais do que ecológicos. A ecologia é uma ciência especial que faz uso de métodos científicos. A filosofia é o fórum de debate mais geral dos fundamentos, tanto descritivos como prescritivos, e a filosofia política é uma de suas subseções. Por Ecosofia eu quero dizer uma filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico. Uma filosofia é um saber abertamente normativo que contém ambas as normas, regras, postulados, pronunciamentos de valor prioritário e hipóteses relativas ao estado de acontecimentos em nosso universo. Sabedoria é o saber político, a prescrição, não apenas a descrição e a previsão científica.
Os detalhes de uma ecosofia demonstrarão muitas variações devidas a diferenças significantes não apenas aos “fatos” da poluição, recursos, população, etc., mas também a prioridades de valor. Hoje, porém, os sete pontos listados provêem um método de trabalho unificado para os sistemas ecosóficos.
Na teoria dos sistemas em geral, os sistemas são principalmente concebidos em termos da causalidade ou funcionalidade de itens interagentes ou inter-relacionados. Uma ecosofia, no entanto, é mais parecida com um sistema do tipo construído por Aristóteles ou Spinoza. É expresso verbalmente como um conjunto de proposições com uma variedade de funções, descritivas e prescritivas. A relação básica é aquela entre subconjuntos de premissas e subconjuntos de conclusões, ou seja, a relação derivativa.As noções relevantes da derivação devem ser classificadas de acordo com o rigor, com as deduções lógicas e matemáticas acima de tudo, mas também de acordo com o quanto são implicitamente inquestionáveis. Uma exposição de uma ecosofia deve ser considerada apenas moderadamente precisa, considerando o vasto escopo do material normativo e ecológico relevante (social, político, ético). No momento, a ecosofia deve fazer proveito do uso de modelos de sistemas, aproximações grosseiras das sistematizações globais. É o caráter global, e não a precisão no detalhe, que distingue a ecosofia. Ela articula e integra os esforços de um grupo ecológico ideal, um grupo constituído não apenas de cientistas de uma grande variedade e disciplinas, mas também de estudantes de política e de atuantes políticos.
Sob o nome de ecologismo, várias divergências do movimento profundo tem sido priorizadas com um stress unilateral sobre poluição e esgotamento de recursos, mas também com uma negligência das grandes diferenças entre países sub e super desenvolvidos em favor de uma abordagem global vaga. A abordagem global é essencial, mas as diferenças regionais devem determinar em grande parte as políticas para os próximos anos.



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BIBLIOGRAFIA:
NAESS, Arne: THE SHALLOW AND THE DEEP, LONG RANGE ECOLOGY MOVEMENTS – A SUMMARY. APUD: LÜTKENHAUS, Paulo Henrique Marques.

Notas:
[1] Nota do tradutor: Aqui o verbo usar tem o sentido de necessitar.

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